Nós, o Povo
“Mas pra mim, seu doutor não leve a mal, pra mim coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza…” (Guimarães Rosa, Sagarana)
Abstração terrível este de “povo”. Seja para ser aclamada ou vilipendiada ainda assim é uma abstração terrível, tanto pela sua absurda imprecisão de tentar reunir milhares de indivíduos em uma única categoria seja pela assustadora constatação de que ela faz algum sentido.
Lobato foi meu primeiro doutrinador, devo muito a ele e o defendo como um dos poucos que pensou o país com coragem e imaginação. Mas ele cometeu um erro terrível, o mesmo erro de todos os outros “Brown Sahibs” que serviam de arautos da modernização ocidentalizante, menosprezar esta abstração de povo.
Não quero nem falar aqui de todas as mistificações promovidas por uma ou outra ideologia sobre o povo, queria ir mais fundo, falar mesmo da profunda psicologia que emana deste povo, em especial dos camponeses – e somos urbanos e industriais há tão pouco tempo que ainda somos quase todos camponeses lá por dentro – e que tão poucos foram realmente capazes de compreender.
A mania das “escolas” de tender de um Aldo ao extremo conforme as modas tem parte da culpa nesta confusão sobre a identidade nacional. Lobato e Euclides da Cunha tinham quase a obrigação de atacar de frente a besteirada da imagem idealizada que veio antes. Mas erraram na dose e a imagem caricatural que produziram do “povo” mostra que no fundo eles compreenderam pouco do que viram.
Os indivíduos concretos do tal “povo” estão muito mais para o ladino Salathiel ou a manipuladora Maria Irmã de Sagarana do que para Tia Nastácia, mas também não chegam ao ponto de serem Macunaímas, que é a imagem inversa. É estranho que tanto Rosa como Lobato não falam de ouvir dizer – o mesmo não se pode dizer do autor dos Sertões e outros – mas Rosa conseguiu entender aquele povo que o circundava, Lobato não.
Tema recorrente da literatura “mística” é de repente perceber que um daqueles ingênuos e precários personagens à volta é na verdade o mestre sábio que se procura ou se evita. O episódio clássico de Luke Skywalker encontrando Yoda é apenas uma das formas de contar esta história que aparece mil vezes, assim como muitas das histórias do Mullah Nasrudin e de muitas histórias de todos os folclores.
Digo isto porque o que tantos não perceberam é que o esforço mental, intelectual e até espiritual necessário para ocultar a própria sabedoria é muito mais complexo do que para mostrá-la. É muito mais fácil tornar-se um falastrão do que um dissimulador. Aqueles que olharam o povo com os olhos do deslumbrado com a civilização e modernidade só enxergaram ingenuidade onde havia dissimulação.
O maior erro de todas as visões paternalistas e populistas da política é esse. Não é achar que o povo deve ser defendido contra as maldades de alguma elite ou estrangeiro, é achar que o povo precisa desta proteção, eu não é capaz de defender a si próprio. E quando vejo as “oposições” esbravejarem e ficarem meio tontas com os movimentos dos quais não conseguem tomar parte eu sorrio porque elas também tem esta visão distorcida do povo.
O povo, estou crente disto, brinca com as rivalidades das nossas elites políticas ingênuas a ponto de considerarem-se muito sábias e acima do povo. Não querem mudar por sejam avessos ao progresso como achava Lobato, não querem mudar porque não faz sentido deixar um mundo que se domina por um outro novo no qual novas regras terão de ser feitas. As elites políticas aposentaram as visões políticas e projetos de futuro para lutar pelo poder, o povo entendeu o movimento e se a briga é só pelo poder mais vale conseguir alguma coisa bem concreta hoje mesmo ao invés de discursos nos quais nem quem os proferem acredita mais. Tal como Lalino Salathiel o povo é melhor estrategista político que os grandes estrategistas.
